A ave que 'ressuscitou' após 300 anos; conheça a Bermuda Petrel, o pássaro que vive no mar
02/03/2026
(Foto: Reprodução) A ave que 'ressuscitou' após 300 anos; conheça a Bermuda Petrel
Ninguém ouvia o seu chamado. Durante três séculos, o som que ecoava nas noites de tempestade no arquipélago das Bermudas era considerado apenas uma lenda de marinheiros, um eco de um passado que a colonização humana havia apagado. Mas, em 1951, o mundo da ciência parou: entre fendas de rochas em ilhéus isolados, a Bermuda Petrel (Pterodroma cahow) foi reencontrada. O "fantasma" estava vivo.
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Bermuda Petrel, ou freira-das-bermudas em voo
stephen220 / iNaturalis
O mistério do "cahow"
A Bermuda Petrel, conhecida também como "freira-das-bermudas", é uma ave marinha de médio porte (até 38 cm) com asas longas (até 92 cm de envergadura) e um voo acrobático que corta as ondas do Atlântico Norte. Sua plumagem é uma combinação elegante de cinza-acastanhado no dorso e um branco puríssimo no ventre.
O nome "Cahow" é uma onomatopeia do seu grito melancólico e misterioso. No início de 1600, a ave era onipresente no arquipélago. No entanto, por 331 anos, ela existiu apenas em registros fósseis e relatos antigos, após ter sido declarada oficialmente extinta em 1620.
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Por que elas sumiram?
Bermuda Petrel, ou freira-das-bermudas em voo
stephen220 / iNaturalist
A extinção da Bermuda Petrel não foi um acidente, mas um efeito dominó causado pela colonização. Segundo o Departamento de Meio Ambiente das Bermudas (DENR), três fatores principais selaram o destino da espécie no passado:
Invasores: antes da chegada humana, o Cahow não tinha predadores terrestres. A introdução de porcos (pelos espanhóis), seguida de ratos, gatos e cães (pelos britânicos), foi devastadora. Como a ave nidifica em buracos no chão, os ovos e filhotes eram presas fáceis e indefesas.
Fome: relatos históricos de 1616 indicam que, durante períodos de escassez severa de alimentos, os colonos caçavam as aves aos milhares. Por serem dóceis e não temerem humanos, eram capturadas facilmente com as mãos.
Habitat: o desmatamento das florestas de Cedro-das-Bermudas para a construção de navios destruiu o solo macio onde as aves cavavam seus ninhos, empurrando as poucas sobreviventes para ilhotas rochosas e inadequadas.
O reencontro e a luta pela sobrevivência
Permuda Petrel sendo manibulada
miguel-mejias1987 / iNaturalist
O herói dessa história atende pelo nome de David Wingate. Em 1951, ainda jovem, ele acompanhou a expedição liderada por Robert Cushman Murphy e Louis L. Mowbray que redescobriu apenas 18 casais remanescentes. Wingate dedicou sua vida a criar um santuário para a espécie na ilha de Nonsuch.
A Bermuda Petrel tornou-se um símbolo de conservação por um motivo claro: ela não sobreviveria sem a intervenção humana direta. Como as ilhotas originais eram vulneráveis a furacões e erosão, os cientistas precisaram "ensinar" a espécie a morar em locais seguros.
"A recuperação do Cahow não é apenas sobre salvar uma ave; é sobre restaurar um ecossistema inteiro que acreditávamos ter perdido para sempre", afirma a gestão de conservação das Bermudas no portal oficial Nonsuch Island Project.
Como elas voltaram?
Petréis em voo pelo oceano
stephen220 / Inaturalist
A estratégia para salvar o Cahow é uma das mais complexas da biologia. Pesquisadores instalaram ninhos artificiais de concreto com entradas projetadas milimetricamente. Isso impediu que o Rabo-de-palha (Phaethon lepturus), uma ave maior e agressiva, expulsasse os petréis de seus lares.
Além disso, entre 2004 e 2008, foi realizado um processo de translocação: filhotes foram movidos para a Ilha de Nonsuch, um local mais alto e seguro contra o aumento do nível do mar. Eles foram alimentados à mão por cientistas até estarem prontos para voar ao mar, "memorizando" Nonsuch como seu novo lar de retorno.
O que aprendemos com o Cahow?
Toca e ovo de Bermuda Petrel
chrisearley / iNaturalist
Hoje, a situação é de um otimismo cauteloso. A população saltou de 18 casais em 1951 para um recorde de 164 casais na temporada de 2024, com o nascimento de dezenas de filhotes anualmente.
A lição que a Bermuda Petrel deixa para o jornalismo ambiental e para a ciência é a de que a extinção nem sempre é o fim, desde que haja vontade política e dedicação científica. Ela nos ensina sobre a fragilidade das espécies insulares e a importância vital do controle de espécies invasoras — um desafio que enfrentamos até hoje em diversas regiões do Brasil.
A identidade da Bermuda Petrel
Nome científico: Pterodroma cahow
Habitat: Mar aberto; nidificam apenas em ilhéus remotos das Bermudas.
Dieta: Lula, pequenos peixes e crustáceos capturados na superfície à noite.
Status atual: Em perigo (população em crescimento constante).
População: Superou a marca histórica de 160 casais reprodutores.
Curiosidades:
Antes de retornar para nidificar pela primeira vez, um jovem Cahow passa de 3 a 5 anos sem nunca tocar a terra, voando sobre as águas geladas do Atlântico Norte.
O casal de Cahow permanece junto por toda a vida. Eles se reencontram no mesmo ninho, ano após ano, com uma precisão de GPS impressionante.
A Cahow Cam é um sucesso mundial, permitindo que o público veja, via infravermelho, o cuidado parental dentro do ninho escuro — uma experiência de conexão direta com a natureza selvagem.
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