Análise: 1º discurso de Caiado abre fosso do pré-candidato do PSD com Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo

  • 30/03/2026
(Foto: Reprodução)
Análise: 1º discurso de Caiado abre fosso do pré-candidato do PSD com Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo O primeiro discurso do governador Ronaldo Caiado como pré-candidato a presidente pelo PSD sinaliza um movimento político relevante: um afastamento claro não apenas do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), mas de elementos centrais do bolsonarismo. O surpreendente é que essa ruptura aconteceu mais rápido do que se previa. Ao longo de sua fala, Caiado construiu uma série de contrastes — diretos e indiretos — que ajudam a delimitar esse novo posicionamento. Um dos primeiros pontos é a crítica à polarização. Ao afirmar que ela pode ser “desativada por alguém que não é parte dela”, Caiado indica uma tentativa de se colocar fora do eixo tradicional entre lulismo e bolsonarismo. Na prática, o recado é: nem Lula, nem Bolsonaro. Outro trecho relevante diz respeito ao radicalismo. Ao afirmar que “ninguém é radical quando atinge 80% de aprovação”, o governador sugere uma defesa de moderação — em contraste com a postura frequentemente associada ao bolsonarismo. Caiado também destacou sua defesa da ciência, da pesquisa e do avanço tecnológico, reforçando divergências que já haviam aparecido durante a pandemia, período marcado por atritos entre ele e o então presidente Jair Bolsonaro. Ao lado de Kassab, Caiado é oficializado como pré-candidato à Presidência pelo PSD Jorge Silva/Reuters Há ainda uma crítica mais direta ao desempenho da direita no governo federal. Ao mencionar que, após várias eleições desde o regime militar, a direita venceu apenas em 2018 — e “devolveu” o poder ao PT —, Caiado sugere que o governo Bolsonaro fracassou na tarefa de se consolidar politicamente. Para ele, o desafio central é governar bem o suficiente para que o PT deixe de ser uma alternativa viável. Nesse contexto, o governador cita exemplos de estados administrados por lideranças de direita: Goiás, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul. Estados onde, segundo ele, o PT não teria força eleitoral. A mensagem implícita é de que a direita precisa replicar esses modelos de gestão. Outro ponto sensível é a crítica indireta ao capital político de Flávio Bolsonaro. Ao mencionar a importância de “não pular degraus”, Caiado sugere que trajetórias políticas devem ser construídas por mérito — em contraste com heranças familiares. Por fim, ele reforça sua identificação com a democracia, dizendo ser “apaixonado” por ela — mais um elemento de diferenciação em relação a críticas recorrentes ao bolsonarismo nesse campo. Apesar dessas diferenças com o bolsonarismo, Caiado faz uma concessão importante: defende uma anistia “ampla, geral e irrestrita” para Bolsonaro e seus apoiadores, proposta que afirma estar entre suas primeiras medidas caso chegue à Presidência. O conjunto do discurso indica uma estratégia: manter diálogo com o eleitorado bolsonarista, mas ao mesmo tempo construir uma identidade própria, diferenciada — e, ao menos no discurso, mais moderada. Em síntese, o blog resumiria dessa forma: Caiado deixou o cavalo branco no estábulo e está vendendo a imagem do não radical. O cavalo branco foi o símbolo de sua campanha em 1989, quando liderava a UDR, União Democrática Ruralista, em que prometia enfrentar qualquer tentativa de reforma agrária. Essa imagem entrou para a história como uma face de seu radicalismo. Nesse discurso, ele entendeu que para vencer a eleição, ao contrário do passado, ele precisa deixar o cavalo branco em 1989.

FONTE: https://g1.globo.com/politica/blog/octavio-guedes/post/2026/03/30/analise-1o-discurso-de-caiado.ghtml


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