Bebê que recebeu soro de cobra por engano morre aos 10 meses em SC e família acusa negligência

  • 06/06/2026
(Foto: Reprodução)
José Alfredo de Campos morreu meses após receber aplicação de soro antiofídico Reprodução José Alfredo de Campos, um dos 11 bebês que receberam soro antiofídico por engano ao invés de vacina, morreu na última terça-feira (2) em Joinville (SC) aos 10 meses. A morte do menino, cuja causa oficial ainda não foi divulgada, aconteceu quase 1 ano após a falha na aplicação do imunizante contra a hepatite B em recém-nascidos no município de Canoinhas, no Norte de Santa Catarina. Exames feitos em um hospital cidade vizinha de Major Vieira, apontaram um quadro de bronquiolite viral, uma infecção respiratória comum em crianças menores de 2 anos. Apesar do diagnóstico sem relação direta com a aplicação do soro, a família, no entanto, aponta negligência no atendimento médico e relata que o garoto apresentava baixa imunidade desde o episódio do erro vacinal. ✅ Clique e siga o canal do g1 SC no WhatsApp A falha na aplicação ocorreu em julho de 2025, quando 11 doses de soro antibotrópico foram administradas no lugar do imunizante contra a hepatite B no Hospital Santa Cruz de Canoinhas. Na época, nenhum dos recém-nascidos apresentou complicações imediatas ou efeitos colaterais após a aplicação do soro, que é usado contra picadas de serpentes como jararacas e jararacuçus. Segundo Leila de Campos, mãe de José Alfredo, desde que recebeu a dose por engano, o filho passou a ter a imunidade baixa, necessitando de idas frequentes à unidade de saúde de Major Vieira. “Ele não tinha uma saúde normal. Vivia no antibiótico. Apresentava um sinal de ‘gripezinha’, que eles chamavam assim, né? Eu cheguei a levá-lo duas vezes lá [no Hospital Santa Cruz de Canoinhas]. Moro longe, no interior de Major Vieira, e nós somos pessoas simples. Chegava lá e eles só examinavam, dizendo: ‘não podemos dar nenhum medicamento’”, lembra. Relembre o caso da aplicação de soro antiofídico em bebês Família relata falhas no atendimento O bebê começou a apresentar febre no último domingo (31) e foi medicado pela mãe em casa. No início da noite de segunda-feira (1°), o quadro de saúde piorou, e ele foi levado ao Hospital São Lucas, administrado pela prefeitura de Major Vieira, município onde a família reside. A médica plantonista identificou que o paciente estava desidratado, pálido e com baixa saturação de oxigênio. “Ele estava bem caidinho, abatido e não queria comer. Ainda mamava no peito, mas recusava. A gente conhece o filho que tem, né? Mesmo quando estava doentinho, ele era bem travesso e sempre alegre”, relembra a mãe. O menino passou por um exame de raio-X do pulmão, cujo resultado apontou bronquiolite viral. A doença causa a inflamação dos bronquíolos (pequenas vias aéreas), gerando acúmulo de secreção e dificuldade para respirar. “Aí eu penso comigo: por que não o transferiram na hora? Por que esperar até o outro dia para pedir a transferência?”, questiona Leila. Na terça-feira (2), o hospital local solicitou a transferência do paciente para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville. O trajeto foi realizado pelo Samu. "Aí o Samu já chegou indignado. Até a equipe falou aqui: “como é que deixaram a criança ficar desse jeito para pedir transferência?”, conta a mãe. O bebê foi intubado para o transporte entre as cidades. No entanto, Leila foi impedida de acompanhar o filho dentro da ambulância e precisou se deslocar de carro, chegando a Joinville uma hora e meia após o socorro. Em nota, o Samu se solidarizou com os familiares e afirmou que a Superintendência de Urgência e Emergência está apurando a conduta da equipe que prestou o atendimento. Ao chegar à unidade infantil, a mãe foi informada de que o filho passava por procedimentos médicos. Cerca de 10 minutos depois, recebeu a notícia do falecimento. A causa da morte será confirmada por meio de um laudo técnico em até 45 dias. Onze recém-nascidos recebem antídoto contra picada de cobra ao invés de vacina de hepatite Hospital Santa Cruz de Canoinhas O que dizem os envolvidos? Em nota, a prefeitura de Major Vieira alegou que o atendimento de José Alfredo foi realizado de forma prioritária, seguindo os protocolos assistenciais vigentes para pacientes pediátricos com sintomas respiratórios. Informou também que, durante a permanência na unidade, o paciente esteve sob monitoramento contínuo dos sinais vitais e avaliação clínica periódica da equipe multiprofissional. A administração municipal reforçou ainda que a radiografia de tórax realizada descreveu apenas uma "pequena alteração em lobo inferior esquerdo", o que não caracterizava um diagnóstico definitivo. O Hospital Santa Cruz de Canoinhas manifestou profundo pesar pelo falecimento do bebê. A instituição afirmou que a aplicação incorreta do soro antibotrópico, em julho de 2025, correspondeu a um volume de apenas 0,5 ml, não possuindo qualquer relação causal conhecida com o quadro de bronquiolite. A prefeitura de Canoinhas, onde ocorreu o erro vacinal no ano passado, informou que todas as medidas de acompanhamento definidas à época foram adotadas pelos serviços de saúde responsáveis e prestou solidariedade à família. O que diz a prefeitura de Major Vieira A Administração Pública de Major Vieira manifesta profundo pesar pelo falecimento do infante José Alfredo de Campos e solidariza-se com seus familiares neste momento de dor. Em relação aos questionamentos apresentados, esclarece que a criança deu entrada na Emergência do Hospital São Lucas na noite do dia 1º de junho de 2026, conforme relato da mãe, apresentando sintomas iniciados na manhã do dia anterior. O atendimento foi realizado de forma prioritária, seguindo os protocolos assistenciais vigentes para pacientes pediátricos com sinais e sintomas respiratórios. Durante sua permanência na unidade, o paciente permaneceu em observação e sob os cuidados da equipe multiprofissional de saúde, com monitoramento contínuo dos sinais vitais e avaliação clínica periódica. Como parte da investigação diagnóstica, foi realizado exame de imagem (radiografia de tórax), cujo laudo descreveu pequena alteração em lobo inferior esquerdo, não caracterizando diagnóstico. Diante da evolução do quadro clínico e da necessidade de suporte especializado em unidade de referência pediátrica, a equipe médica acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) para realização da transferência ao Hospital Infantil de Joinville, referência regional para atendimento de maior complexidade. Quanto ao acompanhamento da criança durante o transporte, esclarecemos que os protocolos operacionais do SAMU são de responsabilidade da própria instituição, cabendo à equipe reguladora e assistencial definir os critérios de composição da equipe durante o deslocamento. Paralelamente, a Secretaria Municipal de Saúde providenciou o transporte da mãe até Joinville, bem como prestou todo o suporte necessário para seu acompanhamento durante o atendimento na cidade de destino. Por fim, ressaltamos que a Secretaria Municipal de Saúde aguarda o resultado oficial da autópsia e dos exames complementares realizados pelos órgãos competentes. Somente após a conclusão destas análises será possível o esclarecimento definitivo acerca da causa do óbito e demais circunstâncias relacionadas ao caso. A Secretaria Municipal de Saúde permanece à disposição das autoridades competentes e da família para prestar todos os esclarecimentos necessários, reafirmando seu compromisso com a transparência, a responsabilidade e a qualidade da assistência prestada à população. O que diz o Hospital Santa Cruz de Canoinhas O Hospital Santa Cruz de Canoinhas manifesta seu profundo pesar pelo falecimento da criança José Alfredo de Campos e solidariza-se com seus familiares e amigos neste momento de dor. A instituição tomou conhecimento do óbito por meio de contato realizado pela imprensa de Canoinhas/SC e, imediatamente, buscou informações junto aos serviços envolvidos no atendimento da criança. Até o momento existe a suspeita de uma infecção viral (bronquiolite) que provavelmente tem relação ao óbito. O caso foi encaminhado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) para confirmação diagnóstica. Diante das informações que vêm sendo divulgadas, o Hospital esclarece que a aplicação de soro antibotrópico, ocorrida em julho de 2025, correspondeu a um quantitativo de apenas 0,5 ml, não possuindo qualquer relação causal conhecida com o quadro clínico de bronquiolite ou com o desfecho ocorrido. O Hospital também informa que, após o incidente envolvendo a administração inadvertida do produto, todas as crianças foram prontamente avaliadas e acompanhadas pela equipe multiprofissional durante o período de monitoramento recomendado pelo Instituto Butantan, fabricante do soro. Durante todo acompanhamento, não foram observados eventos adversos graves ou alterações clínicas relacionadas ao produto administrado, sendo que todas as crianças permaneceram em boas condições de saúde ao término do período de observação. Também é necessário esclarecer que a bronquiolite causada pelo Vírus Sincicial Respiratório não possui relação com a vacina contra Hepatite B nem com a administração de soro antibotrópico, tratamentos destinados a finalidades médicas completamente distintas e sem vínculo científico com o desenvolvimento da doença. O Hospital Santa Cruz de Canoinhas reafirma seu compromisso com a transparência, a responsabilidade na prestação de informações à comunidade e o respeito à memória da criança e à dor de seus familiares, aguardando a conclusão oficial da investigação e a confirmação da causa do óbito pelos órgãos competentes. VÍDEOS: mais assistidos do g1 SC nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2026/06/06/bebe-que-recebeu-soro-de-cobra-por-engano-morre.ghtml


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