Brasileiro ganha prêmio internacional de arquitetura com reforma de 'Casa de Mainha', em Pernambuco
21/02/2026
(Foto: Reprodução) Arquiteto Zé Vagner explica a motivação para o projeto 'Casa de Mainha'
No Agreste de Pernambuco, a cerca de 80 quilômetros de distância do Recife, a cidade de Feira Nova abriga uma pérola da arquitetura. Uma casa, construída na década de 1980, mas que foi repaginada em 2025 e venceu, na quinta-feira (19), o prêmio Arch Daily – um dos principais da arquitetura do mundo.
O projeto vencedor foi o "Casa de Mainha", feito pelo arquiteto pernambucano Zé Vagner, de 34 anos. Tudo começou em uma Quarta-feira de Cinzas, em março de 2025, quando ele iniciou a reforma da casa onde mora com sua mãe, a costureira Nalva, de 59 anos.
A empreitada de reconhecimento internacional foi realizada com mão de obra e materiais locais, respeitando o histórico da casa e de quem nela vive (veja vídeo acima).
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"Sou nascido e criado nessa casa. Foi a primeira e a única casa dela [a mãe], que vai fazer 60 anos. [...] Ela nunca teria a condição de contratar um arquiteto. Então, esse projeto só existe por esse movimento do filho que devolve um pouco para mãe. O sacrifício de uma vida para poder estudar. Então, eu acho que ele conta um pouco dessa história", disse Zé Vagner em entrevista ao g1.
Para o arquiteto, vencer o prêmio foi uma grande surpresa, pois centenas de projetos do mundo todo se inscreveram para concorrer.
A inscrição ocorreu após a curadora do Arch Daily convidar o pernambucano para cadastrar seu projeto na plataforma. Após curadoria de todos os cadastros, foram escolhidos os finalistas ao prêmio.
O "Casa de Mainha" foi o único brasileiro finalista entre as 15 categorias participantes, cada uma com cinco concorrentes. A escolha dos vencedores contou com voto do público, por meio de um formulário disponibilizado pela internet, e também o voto do juri formado por especialistas na área.
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"É um dos poucos [prêmios de arquitetura] que têm a participação popular. Então, é o povo decidir o que é bom e o que é relevante. E a gente conseguiu, junto com as redes sociais, nesse processo inteiro de divulgação, falar da 'Casa de Mainha' e as pessoas acharem valor nisso", contou o arquiteto.
A reforma foi feita com uma equipe pequena de projeto, um ceramista, um pedreiro e uma ajudante de pedreiro. Ao longo do processo, Zé registrou o avanço das obras em seu perfil no Instagram, que conta com 315 mil seguidores. Os vídeos mostram o andamento da reforma, fotos da família e do antes/depois da casa.
A "Casa de Mainha" já havia recebido outro prêmio de arquitetura, pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) em Pernambuco. O projeto foi reconhecido na categoria Edificações e concorre, ainda, na disputa nacional do prêmio, cujo resultado sai em março.
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Construção familiar
A casa foi construída pelo pai, mãe e avós de Zé, que fizeram desde os tijolos até o telhado. O processo de reforma também foi uma forma de revisitar esse passado de alvenaria e afeto. "A gente encontrou tijolo com a marca do dedo da pessoa que fez. Então, é um processo de resgate de memória, de muita emoção", lembrou Zé.
O início da reforma partiu da vontade de um filho querer trazer mais qualidade de vida para a mãe, que sofre com problemas respiratórios e precisava de uma casa mais arejada. Assim, cinco cômodos da área comum foram integrados para formarem dois, maiores, com mais janelas, cobogós e pé direito alto.
Nalva, mãe do arquiteto Zé Vagner, encontra tijodos originais da Casa de Mainha
Hélder Santana/Divulgação
Durante os meses de obras, o principal desafio enfrentado foi econômico. Por isso, o arquiteto precisou buscar soluções de baixo custo para os problemas da casa.
"Se a gente puder trazer uma lição, é que dá para fazer arquitetura com pouco. E uma arquitetura boa, que atende as necessidades de quem mora lá", pontuou o profissional.
Uma das soluções foi uso de placas de concreto acima das janelas, para proteger e permitir que fiquem abertas até mesmo quando chover. Os cobogós, além de permitirem a entrada e circulação do ar, também complementam a estética casa.
"Onze peças de cobogó que a gente colocou aqui, numa parede mais alta, que ela dá um show de iluminação durante a tarde. Aí o sol entra, aquece a casa inteira e desenha a sombra no teto. Um efeito lindo que custou, sei lá, R$ 120", contou Zé Vagner.
Sombras no teto feitas pelos cobogós instalados na Casa de Mainha
Hélder Santana/Divulgação
Outro desafio do arquiteto foi conseguir agradar a mãe.
"A gente estava desenvolvendo o projeto para minha mãe, que não queria nada do que coloquei aqui. Então, ela testou tudo. Eu não queria colocar porcelanato polido, porque é muito difícil para manutenção e também para o idoso, o risco de queda é grande. Ela saiu escondida de mim e comprou o porcelanato que ela queria", disse.
Entre os pedidos da matriarca também esteve a fachada, pois ela não abriu mão da privacidade, e Zé precisou instalar aberturas na base do muro para ajudar na ventilação.
"Essa porta da fachada está nessa casa há mais de 30 anos. Então, muita coisa a gente manteve, por questão de custo e por questão de teimosia de mainha mesmo", brincou o arquiteto.
Orgulho da vizinhança
Após a reforma ser finalizada, a casa passou a ser reconhecida na vizinhança. Moradores passam na frente, elogiam e querem visitar. Inclusive, já realizaram um terço dentro da residência, pois Nalva é muito religiosa, fiel da Igreja Católica.
"O padre está querendo vir abençoar. A gente criou também um oratório aqui na frente. Então, quem chega na casa, já dá de frente com a imagem. É tipo um 'xô Satanás'. E o pessoal daqui geralmente é católico. Um dia eu estava na frente e vi gente se benzendo na casa, fazendo oração", contou o arquiteto.
*Estagiária sob supervisão do editor Pedro Alves.
Casa de Mainha virou atração da vizinhança após reforma
Hélder Ferrer/Divulgação
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