Da Amazônia ao sertão: cinco carnavais de que você provavelmente nunca ouviu falar
14/02/2026
(Foto: Reprodução) Da Amazônia ao sertão: cinco carnavais que você provavelmente nunca ouviu falar
Longe dos grandes sambódromos e dos trios elétricos, o carnaval brasileiro ganha forma nas margens dos rios amazônicos, na zona da mata e no sertão pernambucano.
No interior do Pará, em Curuçá, a fantasia de carnaval é feita de lama no bloco Pretinhos do Mangue. Em Cametá, o Cordão da Bicharada transforma a fauna da floresta em personagens de um cortejo que mistura consciência ecológica, cultura ribeirinha e navegação pelas águas do rio Tocantins. Já em Óbidos, a tradição dos mascarados “fobós” é reconhecida como patrimônio cultural do estado.
Mestre Zenóbio é um dos criadores do "Cordão da Bicharada", tradição no carnaval de Cametá
Lissa de Alexandria/g1
Já no interior de Pernambuco, "caretas" com chicotes nas mãos desfilam pelas ruas de Triunfo, no sertão do Pajeú, em uma tradição que atravessa mais de um século. Na Zona da Mata, o maracatu rural, criado por trabalhadores dos engenhos, leva às ruas caboclos de lança, bordados vibrantes e o ritmo forte do baque solto
Bloco Pretinhos do Mangue
Em Curuçá, no Pará, o bloco Pretinhos do Mangue desfila tradicionalmente na segunda-feira de carnaval. Os participantes se cobrem com lama do manguezal e saem pelas ruas ao som de música e percussão, em uma celebração irreverente e comunitária que remete à relação da cidade com o mangue e os pescadores locais.
Com cerca de 35 mil habitantes e mais da metade do território composto por manguezais — 66% da área integra a Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá — o município transformou sua principal paisagem natural em marca da folia.
Carnaval 2025 no Pará: Os brincantes Osvaldina e Silvio Cardeal curtindo o bloco 'Pretinhos do Mangue'.
Taymã Carneiro / g1
O banho de lama começou em 1989, quando dois brincantes, Everaldo Campos e Sebastião, foram ao mangue, mas não encontraram caranguejos. Como forma de protesto, eles decidiram sair no corredor da folia lambuzados de barro e enfeitados com galhos.
Hoje, o bloco é reconhecido como patrimônio cultural do Pará, reúne milhares de foliões e toma conta da avenida Sete de Setembro, saindo do porto Pretinhos do Mangue até a praça central, onde se junta a outros blocos e micaretas.
A festa também carrega mensagens de conscientização ambiental e homenagens a povos indígenas, reforçando a identidade ecológica do município.
Cordão da Bicharada do mestre Zenóbio
Na vila do Juaba, em Cametá, no Pará, a fauna amazônica ganha vida no Cordão da Bicharada. Criado em 1975 por mestre Zenóbio Ferreira, o bloco surgiu da vontade de fazer um carnaval diferente. Foi então que ele criou fantasias de animais da floresta para aproximar as pessoas da natureza.
Cordão da Bicharada chama atenção para a temática do meio ambiente no Pará
Toninho Castro/Acervo Zenóbio Ferreira
O contexto era marcado pelos impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. A bicharada — onças, macacos, pássaros e outros animais — passou a levar a mensagem da preservação ambiental. às ruas.
Por duas décadas, apenas adultos se fantasiavam. Em 1993, as fantasias infantis passaram a ser confeccionadas. Hoje, quase 50 anos depois, mestre Zenóbio guarda um acervo com mais de 80 personagens, fotografias e canções compostas ao longo da história do cordão.
O desfile oficial acontece geralmente na sexta-feira de carnaval. Depois de circular pelo Juaba, os bichos embarcam com a banda e atravessam o rio Tocantins para animar o centro de Cametá, integrando o chamado Carnaval das Águas.
O carnaval dos mascarados “fobós”
No município de Óbidos, o carnaval acontece entre sábado e terça-feira e é marcado pelos tradicionais bailes chamados “fobós” e pelos mascarados que ocupam as ruas do centro histórico. A festa, conhecida como Carnapauxis, é patrimônio cultural do Pará.
Mascarados Fobós gigantes tomaram as ruas de Óbidos no domingo
Ascom PMO / Divulgação
A festa carrega traços da tradição portuguesa, principalmente nas máscaras e alegorias. O símbolo maior é o Mascarado Fobó: foliões vestem um macacão colorido e folgado, chamado de “dominó”, usam máscaras de papelão feitas por artesãos locais, capacetes de cartolina com tiras coloridas, além de bexiga de boi, apito e pó.
Valdir Marinho de Matos, o “Valdir das Máscaras”, foi um dos principais responsáveis pela confecção das máscaras e pelo fortalecimento de blocos tradicionais como Arara, Garcinha, Serra da Escama, Unidos do Morro e Bloco das Virgens. Ele morreu em 2020, aos 98 anos, deixando como legado a imagem mais reconhecida do carnaval obidense.
Os caretas do sertão
No município de Triunfo, no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, quem domina a folia são os caretas. A cidade, localizada a mais de mil metros de altitude e conhecida pelo clima mais ameno, mantém uma tradição carnavalesca que atravessa mais de um século.
Caretas Triunfo
Acervo/Prefeitura de Triunfo
Os primeiros as registros fotográficos da festa são de 1912, mas os caretas surgiram oficialmente em 1917, quando um mascarado chamado Mateus, integrante de um grupo de reisado, foi expulso após uma confusão durante festejos natalinos. Ele saiu sozinho pelas ladeiras e voltou no carnaval seguinte, dando origem ao personagem.
Com e chicotes nas mãos, os caretas percorrem as ruas da cidade. O artesão cego Arnaldo Antônio, conhecido Mestre Quadrado, é o responsável por confeccionar os chicotes dos caretas, que desfilam pelas ruas com o objeto nas mãos, além de fantasias coloridas e máscaras.
Maracatu rural na zona da mata
Na zona da mata pernambucana, entre engenhos de cana-de-açúcar, surgiu o maracatu rural — também chamado de maracatu de baque solto — entre os séculos XIX e XX. Criado por trabalhadores rurais, o cortejo incorporou ao longo do tempo elementos das culturas africanas, indígenas e europeias.
Exposição Maracatu Rural – A magia dos Canaviais
Hans Von Manteuffel
Durante o carnaval, grupos desfilam principalmente entre domingo e terça-feira em municípios como Nazaré da Mata e Aliança. Os caboclos de lança, com suas fantasias exuberantes, lanças coloridas e bordados brilhantes, são o símbolo da manifestação, acompanhados pelo ritmo intenso de ganzás e alfaias.
Entre os grupos mais antigos está o Cambinda Brasileira, fundado em 1918 no Engenho Cumbe, em Nazaré da Mata. É considerado o maracatu rural mais antigo em atividade ininterrupta no Brasil e reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco.
Da Amazônia ao sertão: cinco carnavais que você provavelmente nunca ouviu falar
Hans Von Manteuffel; Acervo/Prefeitura de Triunfo; Toninho Castro/Acervo Zenóbio Ferreira