'Envelhecer': mercado de trabalho 60+ cresce e se torna estratégico com mudança no perfil populacional

  • 03/02/2026
(Foto: Reprodução)
'Envelhecer': quais os desafios do mercado de trabalho 60+ Aos 79 anos, Paulo Cizotto tem muitas experiências para contar e tempo de carreira suficiente para se aposentar. Mas, há cerca de cinco meses, decidiu voltar a trabalhar para não ficar parado e dar um reforço nas contas de casa. Depois de atuar com contabilidade, vendas e como recenseador do IBGE ao longo de décadas, aceitou uma nova oferta de emprego, desta vez como operador de caixa de uma grande rede de supermercados em Ribeirão Preto (SP). "Hoje em dia já estou mais solto, já estou conseguindo executar tarefas com mais tranquilidade", diz. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Ribeirão e Franca no WhatsApp Paulo é protagonista de um crescimento de pessoas acima dos 60 anos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo dados do IBGE, em 2024 já eram mais de 8,3 milhões de pessoas ocupadas, com uma taxa recorde de 24,4% para essa faixa etária. Em outras palavras, uma em cada quatro pessoas no país acima dos 60 anos trabalha. Para especialistas em recursos humanos, esse movimento não é uma mera tendência, mas sim uma realidade irreversível em meio ao envelhecimento da população brasileira que desafia a cultura das empresas e coloca em xeque os preconceitos associados à idade. Essa é uma transformação, eu diria, fisiológica mesmo. Uma transformação de capacidade do indivíduo de postergar a degradação do corpo. O pessoal brinca que os 50 são os novos 40. Talvez os 65 sejam os novos 50. Esta reportagem faz parte da série "Envelhecer", um especial do g1 sobre os desafios associados ao envelhecimento da população no mercado de trabalho, na sexualidade, na saúde pública e no acolhimento institucional. Aos 79 anos, Paulo Cizotto é operador de caixa em um supermercado em Ribeirão Preto (SP). Murilo Corazza/g1 Envelhecimento populacional e mercado de trabalho Somente em São Paulo, segundo dados de 2023 da Fundação Seade, mais de 2,1 milhões de pessoas acima dos 60 anos estavam ocupadas. O número é 55% maior do que o registrado em 2014. De acordo com a fundação, essa maior presença de idosos em postos de trabalho pode ser atribuída aos seguintes fatores: aumento da longevidade; prolongamento da vida economicamente ativa; necessidade de subsistência ou complementação da renda familiar. Para o consultor em RH Rodrigo Fonseca, as transformações no mercado de trabalho 60+, por um lado, têm a ver com uma maior qualidade de vida e mais acesso aos cuidados de saúde, o que tem feito com as pessoas tenham envelhecido com mais condições de prolongar sua jornada profissional. Por outro, o próprio envelhecimento populacional significa uma tendência de menor disponibilidade de mão-de-obra jovem no futuro, o que pode aumentar os espaços para os mais velhos atuarem. A Organização Mundial de Saúde (OMS) projeta que a população brasileira vai continuar a crescer até por volta de 2035 e, a partir de então, se estabilizar para depois começar a cair, depois de 2040. Em 2050, as pessoas acima dos 60 anos devem saltar de 33 milhões para mais de 63 milhões. "As últimas gerações dos anos 1970, 1980, 1990 para cá têm feito o diferencial negativo demográfico. (...) Você vai ter uma população realmente envelhecendo e daqui a pouco diminuindo. Isso faz com que o mercado de uma maneira geral envelheça." Aos 66 anos, Marly Fernandes acaba de ser promovida para o setor de atendimento após atuar com cobranças em empresa de serviços financeiros em Ribeirão Preto (SP). Divulgação/ Paschoalotto Paciência e experiência: os pontos fortes Dados do IBGE mostram que a maior parte dos brasileiros acima dos 60 anos que trabalham atuam por conta própria (43%) ou foram contratados com carteira assinada (17%). Em algumas áreas, a demanda por pessoas mais velhas começa a ficar mais evidente, principalmente pelas vantagens que costumam ter em relação aos mais novos. Entre elas estão funções associadas a atendimento ao cliente. "Essa é uma habilidade especial dos mais velhos que é ter uma paciência maior para lidar com o público. Na telefonia celular o pessoal liga sempre reclamando e a paciência de escutar e de ser empático, isso é uma coisa que o idoso faz melhor", afirma Fonseca. O consultor também destaca que a bagagem profissional dos 60+ também os torna fortes candidatos para cargos relacionados a treinamento interno e consultoria. "As empresas que vão se dar melhor nisso são aquelas que já identificaram isso e já começaram a agir. O segundo passo é a questão de você encaixar o perfil naquilo que eles fazem de melhor." Aos 66 anos e depois de passar por diferentes empresas, Marly Fernandes está há quase quatro anos como operadora de teleserviços da Paschoalloto Serviços Financeiros. Após de passar pelo setor de cobrança, ela acaba de ser promovida a uma vaga no setor de atendimento ao cliente. "Para cobrar você tem que gostar de trabalhar com o público, em primeiro lugar, porque você pega pessoas educadas, pessoas que já atendem xingando com vários palavrões e tem pessoa atritada. Você também tem que saber lidar com essa pessoa para chegar ao ponto exato que eu preciso, que é passar sobre a cobrança, o débito que consta comigo", diz. Pessoas da faixa etária da Marly hoje representam em torno de 5% do quadro de funcionários da empresa, que decidiu apostar em um programa de contratação de pessoas acima dos 50 anos para acompanhar as mudanças do mercado de trabalho e ampliar a diversidade da mão de obra. "Isso acrescenta na maturidade dentro dos ambientes, mas também é para trazer o compromisso, o comprometimento, a dedicação. Quando a gente pensa nesse público, a gente pensa em tudo isso, em compromisso, em participação, em maturidade", afirma a consultora de RH Sandra Andreia de Oliveira. Mais aprendizado e menos preconceito Desde que implementou um programa focado na contratação de pessoas acima dos 50 anos, há cerca de um ano e meio, a rede de supermercados Savegnago elevou de 10% para quase 20% a parcela de pessoas nessa faixa etária entre seus funcionários espalhados por 22 cidades do interior de São Paulo. "A gente lançou um desafio em que abrimos 500 vagas, isso contando de julho de 2024. O programa teoricamente duraria até julho de 2025, só que a gente contratou muito mais . (...) A gente contratou desde o início do programa mais de 1,5 mil pessoas", afirma Jaciani Rizziolli, diretora de recursos humanos da empresa. A maior parte dos que foram contratados, incluindo pessoas acima dos 60 anos, hoje atuam com atendimento ao público, do caixa ao açougue e padaria. A habilidade de lidar com as pessoas foi um dos pontos fortes para esse perfil profissional, mesmo quando não se tinha experiência anterior na função. "São pessoas que têm muita paciência e jogo de cintura para lidar com o cliente. A gente percebe um nível de maturidade no dia a dia, no atendimento. São pessoas que, por terem bastante experiência de vida, tem mais resiliência, mais paciência e sabem resolver problema. Não não ficam tão estressados na frente de um cliente quando a um problema se apresenta", afirma a diretora de RH. Em um tipo de negócio onde também há muitos jovens atuando, como o varejo, a contratação de pessoas acima dos 50 anos, segundo Jaciani, também representou uma interação repleta de aprendizado entre gerações. "Essa experiência deles ajuda a desenvolver os mais jovens. Eles apoiam muito, isso é bem legal. Em contrapartida, os jovens também os procuram para trocar ideia, pedir conselho, porque veem neles um pouco mais de maturidade, que é o que existe de fato." Desde que começou a trabalhar como operador de caixa, em um supermercado na zona oeste de Ribeirão Preto, Paulo garante que a convivência com os mais jovens tem sido muito produtiva e saudável. "Eu tenho duas filhas que já poderiam ser mãe dessas meninas. Eu sou avô da meninada aqui", brinca. Paulo não nega: a jornada de trabalho é cansativa, sim, mas compensa, por causa dessa convivência que tem com outras pessoas e também por causa dos benefícios pagos pela empresa. "Até quando a força estiver ajudando a gente vai." Segundo Jaciani, a experiência com profissionais mais velhos também tem ajudado a derrubar certos preconceitos, como a ideia de que as gerações anteriores não conseguem lidar com as novas tecnologias. Nos treinamentos realizados pela rede de supermercados, de acordo com a diretora de recursos humanos, os exemplos de dedicação e empenho derrubam o chamado "etarismo". "A gente tem mania de estereotipar as coisas e as pessoas e não é bem assim. Cada indivíduo é um indivíduo. Conheço pessoas que têm 60 anos que têm domínio em tecnologia mais do que pessoas de 30 anos que não têm interesse. Vai muito mais do querer das pessoas do que qualquer outra coisa." Paulo Cizotto passou a atuar como operador de caixa em supermercado após programa de contratação de pessoas acima de 50 anos em Ribeirão Preto (SP). Murilo Corazza/g1 Para a consultora de RH da Paschoaloto, as experiências com pessoas mais velhas também demonstram o quanto as pessoas podem estar erradas com relação à idade. "A gente vê muitas pessoas falando 'ah, mas a pessoa que é mais velha não vai conseguir lidar com o computador'. E nada disso é verdade. A gente tem várias pessoas aqui no nosso programaque se desenvolvem super bem", afirma Sandra. O consultor de RH Rodrigo Fonseca também reforça que essa ideia é equivocada. Segundo ele, achar que uma pessoa acima dos 60 anos tem dificuldade de lidar com o que é novo e com as novas tecnologias é um comportamento preconceituoso que precisa ser repensado. Para ele, esse é um pensamento baseado em pessoas que já não atuam no mercado de trabalho. O mesmo vale para atribuir certos clichês aos mais novos, segundo ele. "Do mesmo jeito que a gente estereotipou a geração Z e os millenials como alguém que não quer trabalhar duro, e eu conheço muitos deles que gostam e trabalham muito duro, e não sei até que ponto a questão da pessoa 60+ ser não digital também não é um estereótipo. Tudo vai da motivação que a pessoa tem para fazer aquilo", analisa. Gerente na loja em que Paulo é operador de caixa, Luiz Polaco, de 64 anos, tem mais de 40 anos na empresa. Para ele, a experiência precisa ser complementada por uma capacidade de adaptação aos novos cenários. "Sei como que é o lado de ser jovem e tenho que aprender a aceitar, porque hoje você tem que evoluir. Você não pode ter a cabeça mais antiga, você tem que acompanhar a juventude. O maior desafio hoje que a gente tem é acompanhar a juventude. Ter aquela experiência que a gente tem do fazer e associar com os mais novos. Essa é a grande sacada", diz. Aos 64 anos, Luiz Polaco acumula 40 anos dentro da mesma empresa e gerencia supermercado em Ribeirão Preto (SP). Murilo Corazza/g1 Veja mais notícias da região no g1 Ribeirão Preto e Franca VÍDEOS: Tudo sobre Ribeirão Preto, Franca e região

FONTE: https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/2026/02/03/envelhecer-mercado-de-trabalho-60-cresce-e-se-torna-estrategico-com-mudanca-no-perfil-populacional.ghtml


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