Famílias acusam médium de fraudar cartas psicografadas com dados coletados na internet

  • 06/09/2026
(Foto: Reprodução)
Famílias que buscaram cartas psicografadas com Maira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. No lugar do conforto, a decepção. Famílias que buscaram cartas psicografadas com Máira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. Durante mais de dois meses, os repórteres investigaram as denúncias, ouviram pesquisadores e representantes de entidades espíritas e reconstruíram a trajetória de Máira Rocha. Contra ela também existem acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato. Procurada pelo Fantástico há mais de duas semanas, Máira não quis gravar entrevista. Para a empresária Marina Escames, a perda de seu marido Thiago foi devastadora: "Quando ele partiu, pra gente foi uma ruptura que é muito difícil aprender a viver sem ele". A comerciante Marcela Magalhães relata a dor de enterrar seu filho Henrique, de 18 anos, que faleceu em um acidente de carro : "Você precisa se agarrar a qualquer coisa, porque senão você afoga você vai junto com ele. Enterrar um filho é atravessar a maior dor. Muitas vezes, para quem fica, a morte cria uma necessidade de buscar respostas na espiritualidade . Thiago, o marido de Marina, morreu de leucemia . "Eu sou espírita kardecista desde que nasci, então eu sempre acreditei muito na psicografia, nos médiuns. Então eu queria muito uma notícia dele". A ajuda espiritual para Marina também tinha como objetivo aliviar o sofrimento do filho caçula, Matteo, que tinha apenas 3 anos quando o pai morreu. Também era do pai que Diva Mascarenhas Borges sentia falta. "Eu tive a informação de que tinha uma pessoa que recebia cartas, e que era muito boa". Diva e Marina procuraram a mesma pessoa, Máira Rocha . A médium declarava publicamente: "Eu quero propagar a palavra de Deus". Marina conta que acreditava piamente em Máira devido a vídeos recomendados por seu pai : "Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o Thiago". Máira Rocha Reprodução/Globo A advogada Máira Rocha é conhecida como médium em Brasília. No espiritismo, médium é quem serve de intermediário entre as pessoas e os espíritos. Ela também trabalha no Ministério da Saúde. No começo deste ano, Máira Rocha construiu seu próprio centro espírita, a Casa da Caridade Inácio Daniel. A instituição atende cerca de 5 mil pessoas por mês, sobrevivendo de doações e ajudando pessoas necessitadas com alimentos, roupas e agasalhos. Em uma de suas transmissões ao vivo, ela declarou: "Procurem fazer o bem, em nome de quem você acreditar, porque Deus vai estar ali". Essa generosidade inicial encantou o ex-voluntário Antônio Carlos Felizola. "Fazíamos um bazar, também doávamos roupa, e também a Maira logo que chegou, fundou a sopa". Boa parte das atividades da Casa da Caridade é voltada para os atendimentos espirituais. O trabalho de cartas psicografadas, também chamadas de cartas consoladoras, é coordenado por Máira, e as doações servem como agradecimento das famílias. Marina Escames relembra que contribuía frequentemente: "Quando eu recebi a carta, eu me senti muito grata, então eu quis realmente fazer algumas doações. Ela estava construindo a nova Casa da Caridade. Você comprava o tijolinho, que ela ia colocar o nome da pessoa que tinha partido". Máira defendia a arrecadação financeira alegando que sua mediunidade não poderia se afastar da matéria : "A Casa da Caridade poderia funcionar com seu trabalho só mediúnico, se fosse só mediúnico, mas não existe essa possibilidade da mediunidade da Máira se afastar do campo material". Outra modalidade de arrecadação do centro eram os leilões de roupas e objetos que a médium usava em suas sessões de cartas consoladoras. A aposentada Arlete Pereira justifica sua participação nos leilões: "A gente confiava nela, então eu queria uma roupa com a energia dela porque ela convivia com nossos espíritos, dos nossos filhos, dos nossos familiares". O olho grego foi uma das peças mais caras arrematadas pelos seguidores. Máira Rocha destacou o valor do amuleto ao entregá-lo para um seguidor : "Eu coloquei as minhas energias nesse amuleto. Todas as energias ruins que eu tinha, ele me tirou e me trouxe muitas alegrias. Eu entro em casa todos os dias e vejo muitos espíritos ali perto deles." Entretanto, práticas de leilão são rejeitadas pelas instituições oficiais do espiritismo . Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), faz uma crítica clara ao modelo. "A doutrina não nos autoriza, não nos ensina a realizar leilões, esse tipo de prática. Ela nos ensina a servir. E servir de forma desinteressada ." . Em diversos vídeos, Máira Rocha afirmava que seus dons mediúnicos haviam surgido na infância, quando ela vivia em Jati, no Ceará, cidade de 8 mil habitantes. "A minha mãe conta as primeiras experiências a partir dos quatro anos. Eu me recordo a partir dos sete anos". Essa mediunidade, no entanto, nunca foi notada por seus familiares na pequena cidade . Ao ser perguntada sobre o dom de Máira, sua prima Márcia Rocha declarou : "Não. Novidade, novidade para todos nós." Ao ser indagada se nunca haviam percebido algo, Márcia foi categórica : "Como a cidade é pequena, essa mediunidade que ela alega ter não passaria despercebida". Márcia também desmistificou a história do apelido de Máira, "Lê", que a médium afirmava ter recebido de um espírito que a ensinou a ler. "Na verdade, o apelido Lê veio do nome Alexandrina, de Maira Alexandrina". O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola relembrou discussões constantes entre ela e seu esposo : "O marido dela, eles brigavam muito. Ele falava: eu vou contar para todo mundo que isso é uma farsa. Você é uma farsante!" As denúncias de fraude ganharam força a partir das inconsistências em cartas enviadas a famílias enlutadas. Marcela Magalhães, vulnerável pela dor de perder o filho Henrique, de 18 anos, relata como se sentia ao buscar ajuda : "É tanta dor, é tanta dor que você, você acredita em qualquer coisa." Ela relata que recebeu dois recados de seu filho Henrique durante uma transmissão ao vivo realizada por Máira Rocha . Na live, Máira mencionou o jovem : "Eu eu tô com o Henrique, um jogador de futebol que desencarnou muito cedo, mas mãezinha, ele tá bem." No entanto, Henrique nunca foi jogador de futebol profissional, fato que alertou o marido de Marcela : "Meu marido virou pra mim e falou assim: mas ele não é jogador de futebol. Pra mim foi um erro, dela." Marcela mais tarde identificou a origem do erro: uma fotografia de Henrique vestindo um uniforme esportivo que estava vinculada a uma reportagem de jornal sobre seu acidente de carro. A reportagem original havia cometido o mesmo erro ao descrever Henrique como jogador de futebol. Um segundo recado de Máira gerou ainda mais desconfiança, ao associar Henrique a outras duas pessoas no carro. A médium errou ao assumir que os amigos que apareciam na foto estavam envolvidos no acidente de carro. A imagem na realidade era uma montagem de uma campanha de alimentos realizada durante a pandemia, reunindo fotografias de três jovens que faleceram em épocas e circunstâncias distintas como uma homenagem de Marcela em suas redes . "O Henrique morreu de acidente em fevereiro de 2020. O João morreu de AVC em abril de 2020, e a Letícia morreu de um mal súbito, em 2005." . O cruzamento sistemático de dados é uma prática comum de quem investiga golpes online, como explica o youtuber Guga Guimarães. "Então, além de cruzar os dados que estão na internet disponíveis, ainda tem as matérias online, quando a morte é trágica, e também as redes sociais dos parentes, que também é fácil encontrar. Infelizmente, a nossa vida toda está disponível na internet para quem quiser ver." O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola revelou que já tinha sérias suspeitas sobre a idoneidade das informações obtidas por Máira : "E, sinceramente, eu comecei a desconfiar. Chegavam pessoas que já receberam carta, questionando a carta." Especialistas orientam que certos procedimentos adotados pelos centros podem indicar indícios de fraude, como a exigência prévia de dados cadastrais detalhados e prazos longos. O escritor e pesquisador espírita Pedro Camilo aponta essa facilidade de varredura. "Com essas informações é possível fazer uma varredura nos bancos de dados que existem na internet, elaborar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes desencarnados que podem ter as suas informações transmitidas." Marina Escames descreveu o rígido protocolo burocrático exigido pelo centro de Máira antes das sessões : "Antes da data da psicografia, 60 dias antes, você precisa se inscrever , você e o seu acompanhante, e passar o nome completo, o CPF da pessoa que vai e do acompanhante." Marcela Magalhães relatou exigências semelhantes de documentação e passagem : "Nome completo, sem estar abreviado, e mandar um comprovante ou de hotel ou do avião." . Este modelo burocrático difere drasticamente da conduta do médium mais conhecido do Brasil, Chico Xavier, como reforça Jorge Godinho: "Tinha uma multidão de pessoas, ele não sabia quem estava. Ele não tinha CPF, não tinha endereço, nada disso. Porque o telefone ele toca do alto para cá. E aí aqueles espíritos que ali estavam, que iriam trazer alguma informação, ele psicografava." Durante sua ida à Casa de Caridade Inácio Daniel, Marina Escames presenciou um ritual conhecido como "fila do abraço", realizado antes da sessão psicográfica, onde a médium costumava extrair informações de forma direta e sutil : "Então, na realidade, ela também tem esse contato, ela faz uma fila de abraço antes da psicografia." . Ao ser completada pela repórter Lilia Teles sobre a coleta de dados, Marina confirmou. " Ela perguntou o nome do meu marido completo, ela perguntou do que ele tinha falecido, eu dei uma foto dele e, assim, realmente, nessa fila de abraço, ela pegou várias informações." Na mesma sessão, Matteo, filho mais novo de Marina, correu para entregar uma cartinha pessoal à médium : "O Matteo saiu correndo antes de mim, porque estava bem cheio, chegou até ela com uma cartinha que ele tinha feito, que queria que ela entregasse para o pai dele." Dias depois, durante uma palestra pública, Máira anunciou uma revelação : "olha, tem um marido que eu conversei ontem que falou que ama a esposa. Ama pra cacete". Marina achou o jargão incomum para o perfil do marido : "Aí na hora não caiu minha ficha porque meu marido nunca falou assim. Ele sempre falava que me amava mais que tudo, que eu era a vida dele, mas não essa palavra." Contudo, ao buscar em seus arquivos de fotos e redes sociais, identificou um print antigo de um parabéns do marido que trazia a mesma expressão : "Eu entrei nas minhas fotos, que eu tenho prints de redes sociais. E lá estava uma mensagem que o Tiago me mandou de aniversário E no final ele falou: 'te amo pra cacete'. Aí eu falei: 'poxa, então é o Tiago, né? É o Tiago que mandou essa mensagem'." Marina descobriu ainda que Máira havia levado as cartas prontas para o local : "Nesse dia ela falou que ela tinha já levado as psicografias prontas de casa." Ao ser indagada por Lilia Teles sobre os termos descritos na carta, Marina contou : "Falou que ele era um pai muito apaixonado e falou que eu era a âncora dele. E realmente ele tinha uma tatuagem de âncora com meu nome." A carta também relatava momentos de hospitalização e citava chá de camomila : "Passamos noites terríveis, de dor, febre e você lá, naquelas cadeiras, junto comigo. Ele tá dizendo que não aguenta nem ver chá de camomila." Marina lembrou que esse detalhe constava em um vídeo publicado por ela na internet : "Tem um vídeo que ele tá colocando, que eu tô colocando chá de camomila gelado, porque ele tava com o braço infeccionado, inflamado." Nicolas, o filho mais velho de Marina, de 16 anos, foi quem identificou que as informações da carta correspondiam aos perfis da rede social do pai falecido . Ao ser questionado se era na conta do pai falecido, ele descreveu : "Eu entrei e acabei vendo muita semelhança em relação à carta. E aí na hora eu chamei a minha mãe e falei: 'mãe, olha, tá tudo aqui!'" . A mãe confirmou a descoberta após olhar o perfil . "Tinha o vídeo da camomila. Tinha minha tatuagem e o "te amo pra cacete" no final. E ali eu vi que realmente estava tudo na internet. " O único elemento ausente nas redes era a menção a um episódio de bullying sofrido pelo caçula Matteo, apontado na psicografia. "O amiguinho falou que ele era sem pai. E ela citou isso na carta, falou assim: Matteo, agora você vai mostrar pra todo mundo que você tem um pai. E aí eu pensei, eu falei assim: nossa, como que ela sabia isso? Só meus filhos sabiam, ninguém, eu nunca falei, nunca postei nada sobre isso, e ela começou a falar a carta pra ele, aí foi muito emocionante, né, falando que via ele, e todo mundo chorou muito. Ele chorou, ele tinha nove anos, ele pulava de chorar. E no fundo eu fiquei muito muito feliz de ele ver que o pai dele estava vivo, que o pai dele amava ele." A surpresa foi desfeita quando Marina percebeu que Matteo havia relatado o bullying no bilhete entregue diretamente à médium. "Eu sentei para conversar com meu filho. Eu falei: você conversou com ela? No dia que ele saiu dando a cartinha, ele conversou e eu não vi." Ao ser questionado, o menino confirmou : "não, mãe, eu conversei, a única coisa que eu falei realmente pra ela, eu falei que era se ela podia entregar a cartinha pro meu pai, e que ele me mandasse uma carta pra eu poder mostrar pro meu amiguinho que falou que eu sou sem pai." Para Marina, a mentira foi devastadora : "pronto, a única coisa que me apegava foi o meu filho que falou pra ela!. O que mais me machucou foi o que ela fez com o meu filho. Foi o segundo luto, tanto para mim quanto para o meu filho." O menino entrou em depressão profunda após descobrir a farsa . Em apoio às vítimas, sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Máira Rocha na Justiça por estelionato, charlatanismo e por crime baseado no artigo 232 do ECA: submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento. O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explica o crime de estelionato espiritual : "O tipo de estelionato é justamente quando procura, nesse caso específico, se instrumentalizar a fé, ou seja, enganar a pessoa dizendo que possui informações extraordinárias, quando na verdade está enganando a pessoa, está buscando informações em bancos de dados onde pode se encontrar em redes sociais, eventualmente na internet, e entregar uma carta psicografada que na verdade ela é fake." O histórico policial de Máira Rocha aponta investigações em pelo menos cinco estados do Brasil por estelionato, calúnia, difamação e ameaça . Há ainda denúncias no Ministério Público por apropriação indébita, desvio de recursos públicos e rede de influência com servidores públicos . Vítimas relatam que muitas pessoas desistem de denunciar por medo de ameaças feitas pela acusada. Em suas transmissões, Máira rebateu os questionamentos públicos de forma impositiva. "Cuidado na pedra que você joga, tenha absoluta certeza que seu telhado não é de vidro para que você possa fazer isso. Eu prefiro responder um processo cível, porque provavelmente vai acontecer, já que eu vou falar os nomes das pessoas. Prefiro pagar indenização". As mentiras trazem impactos sérios para a saúde de quem busca consolo . O psicólogo e pesquisador Everton Maraldi alerta para as consequências desastrosas no luto : "Esse efeito pode ser, para muitas pessoas, desastroso". Por outro lado, as psicografias sérias são alvo de investigações científicas no Brasil há 15 anos . O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida lidera o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES), na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) . Alexander explica o rigor metodológico na seleção e acompanhamento dos participantes nas pesquisas do NUPES : "Nósselecionamos médiuns que fazem esse trabalho de ponto de vista voluntário, que não tem nenhum benefício material com isso. O segundo critério também que nós temos, nós selecionamos pessoas que vão ter contato com esse médium, pessoas enlutadas, que perderam entes queridos, mas essas pessoas não têm contato prévio." Ele acrescenta sobre o isolamento das partes para evitar contaminação de dados : "E depois, quando começa a pesquisa em si, quando o médium encontra o familiar, o médium é monitorado continuamente até o momento que ele psicografa." O pesquisador pondera que as evidências apoiam a mediunidade autêntica em certos casos : "Há, de modo muito consistente, evidências de que há pessoas, médiuns, que são realmente capazes de obter informações muito precisas sobre as pessoas falecidas, sem ser por meios convencionais." O Fantástico enviou mensagens, ligou, procurou Máira Rocha diversas vezes para que ela respondesse as denuncias de fraude nas cartas psicografadas, mas ela não aceitou gravar entrevista. A proliferação de práticas fraudulentas gera repúdio generalizado no movimento espírita. Jorge Luiz Hessen, pesquisador espírita e ex-assessor de duas federações brasileiras, clama por prudência e chama a fraude de "estelionato do luto". "É um crime lesa-Deus." . O pesquisador espírita Pedro Camilo lembra o alerta clássico do próprio codificador da doutrina espírita, Allan Kardec : "O próprio Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, diz: que todo médium que for pego em fraude deve ser, sim, denunciado, deve ser desmascarado, para que as pessoas verdadeiramente sérias não sejam enganadas por aquele indivíduo, não sejam levadas à falsa compreensão, a uma compreensão mentirosa da realidade." GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. 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FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/09/06/familias-acusam-medium-de-fraudar-cartas-psicografadas-com-dados-coletados-na-internet.ghtml


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