Gilmar Mendes manda soltar delegado investigado no caso Gritzbach e determina fiança de R$ 100 mil e uso de tornozeleira
31/03/2026
(Foto: Reprodução) Caso Gritzbach escancarou o envolvimento de policiais com facções
Arte/g1
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (31) a soltura do delegado Fábio Baena Martin, investigado por suspeitas de corrupção e extorsão no âmbito do caso Gritzbach.
A decisão atende a um pedido de habeas corpus e substitui a prisão preventiva por medidas cautelares. Entre elas estão o afastamento das funções públicas, o uso de tornozeleira eletrônica, a proibição de contato com outros investigados e testemunhas e o pagamento de fiança no valor de R$ 100 mil.
Baena foi citado em delação premiada do empresário Vinícius Gritzbach, que colaborou com investigações sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC) (leia mais abaixo). Gritzbach foi morto em 2024, na cidade de Guarulhos.
Ao analisar o caso, Gilmar Mendes avaliou que não há, neste momento, fundamentos suficientes para manter a prisão. Ele ressaltou que as acusações se apoiam principalmente na delação, sem um conjunto robusto de provas autônomas que a corroborem.
Caso Gritzbach: novas imagens mostram momento da execução do empresário
O ministro também considerou o fato de a fase de instrução já ter sido encerrada, o que reduz a possibilidade de interferência na apuração. Além disso, destacou que o delegado não tem antecedentes criminais e responde por acusações que não envolvem violência.
Na decisão, o magistrado reforçou que a prisão preventiva deve ser aplicada apenas quando houver justificativas concretas, o que, segundo ele, não ficou demonstrado neste caso.
Com isso, Fábio Baena Martin passa a responder ao processo em liberdade, condicionado ao cumprimento das medidas impostas.
PF e do Ministério Público fazem operação para prender policiais
Foto: Divulgação
Prisão do delegado
O delegado Fabio Baena foi preso em dezembro de 2024 numa operação conjunta da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público (MP) contra corrupção policial, havia sido delatado por Vinicius Gritzbach antes de o empresário ser assassinado em novembro.
Gritzbach foi morto a tiros no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Câmeras de segurança gravaram o crime (veja vídeo abaixo). Dois homens estão presos pela força-tarefa suspeitos de participarem da execução do empresário. Eles teriam ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A força-tarefa, que é composta por autoridades policiais, também investiga se agentes da Polícia Civil estão envolvidos no homicídio de Gritzbach.
Em 2023, o empresário havia denunciado Baena e outros policiais civis por extorsão. Em delação premiada dada à época ao Ministério Público, Gritzbach havia dito que os agentes cobraram dinheiro dele para não responsabilizá-lo pelos assassinatos de dois integrantes da facção criminosa PCC.
Delegado preso atuou no DHPP
Anselmo Becheli Santa Fausta, o "Cara Preta", e Antônio Corona Neto, o "Sem Sangue", eram membros do Primeiro Comando da Capital. Eles foram mortos a tiros em 2021 na capital paulista. Gritzbach lavava dinheiro do tráfico de drogas para a quadrilha e passou a ser investigado pela Polícia Civil por suspeita de ser o mandante dos assassinatos dois dois.
Baena era delegado do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) quando investigou o empresário pelas mortes de "Cara Preta" e "Sem Sangue". Segundo Gritzbach, o policial e seus subordinados cobraram propina dele para que não o responsabilizasse pelos crimes. Mas como Gritzbach não pagou os policiais, eles o indiciaram pelos homicídios dos dois membros do PCC.
Contudo, quando Gritzbach foi ouvido pelo MP, ele decidiu delatar o delegado e os outros policiais os acusando de extorsão. E uma semana antes de ser morto no aeroporto em Guarulhos, o empresário voltou a denunciar os agentes da Polícia Civil na Corregedoria do órgão, quando acusou os policiais de pedirem R$ 40 milhões em propina para não investigá-lo pelas mortes dos criminosos do PCC.
Essas informações chegaram ao conhecimento da Polícia Federal que realizou a operação nesta terça.
Além de Baena, também foram presos mais três policiais civis e outras três pessoas suspeitas de envolvimento em crimes de corrupção. Um outro agente da Polícia Civil também é investigado e procurado pela PF.
Operação ocorre em 4 cidades de SP
Antônio Vinicius Lopes Gritzbach foi morto na sexta-feira (8) no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
A “Operação Tacitus” é feita pela PF e promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, com apoio da Corregedoria da Polícia Civil do estado. Ela é realizada na capital de São Paulo e nas cidades de Bragança Paulista, Igaratá e Ubatuba, no interior do estado.
A Justiça decretou a prisão temporária dos investigados, e determinou buscas e apreensões em endereços relacionados a eles, e outras medidas cautelares como bloqueio de contas bancárias e o sequestro de bens.
De acordo com a apuração da Polícia Federal, o esquema criminoso envolve manipulação e vazamento de investigações policiais, venda de proteção a criminosos e corrupção para beneficiar um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.
As investigações apontam que a facção, com o apoio dessa organização criminosa, movimentou mais de R$ 100 milhões desde 2018.
Policiais são investigados por corrupção
Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa fica no Centro da capital paulista
Reprodução/Google Maps
Os investigados, de acordo com suas condutas, vão responder pelos crimes organização criminosa, corrupção ativa e passiva e ocultação de capitais. As penas somadas podem alcançar 30 anos de reclusão.
Os policiais civis são suspeitos de colaborar com o PCC, garantindo proteção e facilitando a lavagem de dinheiro por meio da compra de imóveis através de intermediários ou empresas de fachada. Eles também são investigados por desviar bens que deveriam ser apreendidos.
O advogado Daniel Bialski, que defende Baena e de outro policial preso, informou que "considera a prisão de seus clientes abusiva, mas que só vai se pronunciar após ter acesso à decisão judicial que determinou a prisão."
A equipe de reportagem tenta localizar as defesas dos demais policiais suspeitos.
A operação foi batizada de Tacitus, termo que vem do latim que significa silencioso ou não dito, em alusão à forma de atuar da organização criminosa.
Esta reportagem está em atualização.