Mulheres, pescadores e população do Litoral Norte de PE tiveram maior exposição pelo desastre do óleo nas praias, aponta estudo

  • 07/02/2026
(Foto: Reprodução)
Estudo aponta que mulheres e pescadores foram os mais expostos ao desastre do óleo Um estudo realizado pelo Instituto Aggeu Magalhães (Fiocruz Pernambuco), com participação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apontou que o Litoral Norte de Pernambuco registrou a maior proporção de pessoas com alta exposição ao petróleo durante os vazamentos que atingiram as praias do Nordeste em 2019 (veja vídeo acima). Publicado na revista Cadernos de Saúde, o estudo ouviu 1.259 pescadores vinculados a 27 colônias ou associações do litoral pernambucano. A pesquisa classificou como alta exposição situações de contato com o petróleo, seja de forma direta, pelo forte odor ou relatos de irritação na pele durante o trabalho, ou na limpeza das praias. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Segundo os dados, as mulheres foram maioria entre os trabalhadores mais expostos, com maior concentração na faixa etária entre 45 e 59 anos. Um dos autores do estudo, José Erivaldo Gonçalves, que é pós-doutorando em Saúde Pública na Fiocruz Pernambuco, afirmou que o recorte de gênero identificado na pesquisa ainda deve ser aprofundado. "O estudo epidemiológico pega todo o litoral de Pernambuco. Nesse estudo, a gente consegue identificar grupos de menos, mais e média exposição. O Litoral Norte acaba concentrando esse índice de maior exposição de grupos. (...) Isso do gênero, inclusive, é preciso a gente aprofundar com mais estudos, da divisão do trabalho e como isso influencia os padrões de exposição. É algo interessante, que a gente precisa dar mais atenção", detalhou. Segundo o pesquisador, a análise faz parte de uma investigação mais ampla sobre os impactos do desastre ambiental na saúde dos pescadores a partir de um inquérito epidemiológico, ou seja, um estudo de campo realizado para coletar informações diretas sobre a saúde de um grupo específico de pessoas. "Esse artigo específico integra alguns dos resultados de uma pesquisa maior que a gente desenvolveu em Pernambuco, que é o desastre do petróleo e saúde dos povos das águas. (...) E tinha uma parte do projeto que era a parte quantitativa, que era justamente a realização de um inquérito epidemiológico para a gente tentar entender como foi a exposição desses pescadores e pescadoras a esse derramamento de petróleo", relatou. José Erivaldo relembra que, à época do acidente, os pescadores acabaram se expondo ainda mais por falta de orientação e estrutura adequada para a limpeza das áreas atingidas. "Quando o derramamento aconteceu, existia um despreparo muito grande, tanto dos órgãos ambientais, quanto do próprio sistema de saúde, que não conseguiram abarcar e acionar planos de contingência para atuar nesse contexto. (...) Então, eles [pescadores] começaram a se autogerir, se auto-organizar em defesa do seu território. Eles foram limpar as praias, a boca do rio, os mangues, e isso aconteceu de forma muito dinâmica", contou. Segundo o pesquisador, esse trabalho foi realizado, na maioria das vezes, sem o uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), o que favoreceu o contato direto com o petróleo, seja pela pele, pelo cheiro ou pelo contato com resíduos que permaneceram na água mesmo após a limpeza. "Esses pescadores tiveram contato limpando esse petróleo sem equipamento de segurança ou, muitas vezes, equipamentos de segurança improvisados, que não eram adequados. Isso gera uma exposição aguda, de imediato. Para além disso, o petróleo contaminou todo o ambiente. E o trabalho da pesca artesanal, o processo de trabalho, coloca esses indivíduos em contato muito próximo e imersão com esse território. O petróleo que contaminou esses ambientes não some. Ele fica ali e o processo de contaminação e de exposição vai se prolongando", detalhou. Foto de arquivo mostra trator e voluntários atuando na limpeza das manchas de óleo na Praia do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho Oton Veiga/TV Globo Monitoramento médico A partir desse cenário, o pesquisador destaca que os pescadores sofreram o que o estudo classifica como uma “dupla exposição”: a primeira durante a limpeza inicial das áreas afetadas e a segunda, no contato contínuo com resíduos presentes no ambiente durante o trabalho da pesca. "Para além dessa exposição aguda, houve também uma exposição que podemos chamar de crônica, que se estende ao longo do tempo e envolve o processo de trabalho dessas pessoas. Então, a gente fala dessa dupla exposição, tanto na hora em que o petróleo chegou, que foi ao limpar as praias, quanto do processo de trabalho deles", disse. O estudo também se baseia em referências internacionais, como pesquisas sobre o vazamento de petróleo no Golfo do México, ocorrido em 2010, que despejou óleo de forma ininterrupta por 87 dias após uma explosão. Segundo José Erivaldo, esses trabalhos apontam impactos duradouros na saúde. "Nos baseamos também no campo da literatura, principalmente nos estudos do Golfo do México, depois de 10 anos que ocorreu o acidente com o derrame de petróleo lá. A gente consegue perceber a associação com estresse pós-traumático e quadros de ansiedade com um risco maior de doenças cardiológicas", detalhou. De acordo com o pesquisador, esse alerta reforça também a necessidade de acompanhamento contínuo da saúde das populações expostas ao petróleo no litoral pernambucano. "O projeto continua, para poder identificar tópicos como se existe associação desse grupo com sintomas neurológicos ou respiratórios. Outros estudos também estão trabalhando a qualidade de vida, como é que interferiu", disse. Ele também destacou a importância de preparar o sistema público de saúde para lidar com esse tipo de exposição. "A gente identificou a necessidade de capacitação do Sistema Único de Saúde, da atenção primária, principalmente, na identificação e no acompanhamento de exposição a esse petróleo relacionado, inclusive, ao processo de trabalho da pesca artesanal", detalhou. Foto de arquivo de voluntários retirando óleo da Pedra do Xaréu, no Cabo de Santo Agostinho, Litoral Sul de Pernambuco Marlon Costa/Pernambuco Press VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/02/07/mulheres-pescadores-e-populacao-do-litoral-norte-de-pe-tiveram-maior-exposicao-pelo-desastre-do-oleo-nas-praias-aponta-estudo.ghtml


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