Tenente-coronel disse que ele contribuía 'com dinheiro', e que esposa morta deveria retribuir com sexo: 'Sou o provedor'
20/03/2026
(Foto: Reprodução) Tenente-coronel passa por nova audiência de custódia
Mensagens trocadas por WhatsApp entre a soldado Gisele Alves e o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, revelam que o oficial exigia que a esposa mantivesse relações sexuais com ele sob o argumento de que era o “provedor” do lar.
A mulher foi morta em 18 de fevereiro após ser baleada no apartamento do casal, no Brás, Centro de São Paulo. O oficial da Polícia Militar (PM) está preso pelo assassinato dela.
Para investigadores, o conteúdo dessa e outras conversas que estavam nos celulares dos dois demonstra uma relação marcada por violência doméstica, psicológica, machismo, controle financeiro e imposição sexual.
“Casamento é uma via de mão dupla. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo”, escreveu Geraldo em uma das mensagens enviadas analisadas pela Polícia Civil. Ele também teria agredido a vítima.
A mensagem acima foi enviada por Geraldo para Gisele 15 dias antes de ela ser atingida por um tiro na cabeça. De acordo com o Ministério Público (MP), o marido dela usou a própria arma para matá-la no contexto de uma relação marcada por "ciúme patológico e a decisão firme da vítima de pedir o divórcio."
Tenente-coronel Geraldo Neto cobrou sexo com Gisele Alves sob alegação que ela devia isso a ele pelo fato de o oficial ser o provedor do lar
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O oficial da Polícia Militar (PM) foi preso preventivamente na quarta-feira (18) acusado de matar a soldado da corporação. Ele está detido no Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte da capital.
No mesmo dia, a Justiça o tornou réu por feminicídio (assassinato de mulher por razões de gênero —como violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição feminina) e fraude processual (porque alterou a cena do crime para simular um suicídio).
Cinco dias antes de ser morta, Gisele comunicou ao marido que estava decidida a se separar. “Estou praticamente solteira”, disse. A resposta do oficial foi imediata e ameaçadora: “Jamais! Nunca será”.
Segundo a investigação, as mensagens comprovam que Geraldo não aceitava o fim do relacionamento e tentou impedir o divórcio até os dias finais antes do crime. Para os promotores, a morte de Gisele teve motivação ligada à condição de mulher e à tentativa dela de romper o casamento.
'Macho alfa' e regras impostas
Dias antes do crime, tenente-coronel proibiu soldado de se separar
As mensagens extraídas do celular mostram que Geraldo se autodenominava “macho alfa” e exigia que Gisele se comportasse como uma “fêmea beta obediente e submissa”. Em diversos trechos, ele impunha regras à esposa, interditando comportamentos cotidianos e condenando sua autonomia.
"Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa. Com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser", escreveu o coronel.
O oficial também dizia que, enquanto ela estivesse “na casa dele e sob sua comanda”, teria que seguir suas regras. Entre as exigências estavam restrições de vestimenta, proibição de cumprimentar outros homens e a ideia de que “lugar de mulher casada é em casa”.
Em outra conversa, após Gisele dizer que ele havia deixado de ser “príncipe” e “romântico”, Geraldo respondeu que era “rei, religioso, honesto, trabalhador, provedor e soberano”.
Acusação de feminicídio
Segundo a polícia, troca de mensagens revela que Geraldo Neto ameaçou Gisele Alves cinco dias antes do crime. Ele a proibiu de se separa
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Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e as mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio.
Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida — o que fundamenta a imputação de fraude processual.
A Justiça Militar determinou a prisão do oficial para garantir a ordem pública, a instrução criminal e a hierarquia e disciplina da corporação, já que ele ocupa posto superior ao da vítima.
Geraldo foi preso pela Corregedoria da PM em um imóvel em São José dos Campos, no interior paulista. A decisão autorizou a apreensão de celulares e a quebra de sigilo de dados eletrônicos, além do compartilhamento de provas com a Polícia Civil.
Próximos passos
Tenente-coronel Geraldo Neto se definiu como 'macho alfa' e obrigava esposa ser 'fêmea beta obediente e submissa'
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Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O MP pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.
A defesa nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações. O caso ocorre em meio às mudanças recentes na legislação: desde 2024, o feminicídio é crime autônomo, com penas de 20 a 40 anos de prisão.
Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que a decisão de prender o coronel está amparada pelo fato de o oficial ter cometido um crime contra outro membro da corporação, uma soldado, que era sua esposa.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública, este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio.
Gisele Alves escreveu que marido deixou de ser 'príncipe'. Ele respondeu que era 'Rei, Religioso', 'Bonito, Gostoso', 'Provedor, Soberano'
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Coronel mandou mensagem a esposa ordenando que ela seguisse as regras dele e que 'jamais' seria solteira
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